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Por que o cabelo fica branco? O que genes, idade e estresse têm a ver com isso

O fio branco é um fio sem melanina. Ele aparece quando o folículo deixa de repor as células que fabricam pigmento, num ritmo ditado sobretudo pelos genes e pela idade. O papel do estresse ainda está em estudo.

Redação Curious Mundi · 4 de novembro de 2026

Ilustração de uma pessoa de perfil com mechas brancas no cabelo escuro e uma lupa mostrando um fio ampliado.

O cabelo fica branco quando os fios param de receber melanina, o pigmento que lhes dá cor. Ela é fabricada por células chamadas melanócitos, na base de cada folículo, e essas células são repostas por um estoque de células-tronco. Com o passar dos anos, esse sistema perde fôlego, e os fios novos passam a nascer sem pigmento.

Se o fio não tem cor, por que ele parece branco?

Não existe pigmento branco no cabelo. O fio que chamamos de branco é simplesmente um fio sem melanina. Sem o pigmento que absorve parte da luz, ele reflete ou deixa passar quase toda a luz que recebe, e por isso parece claro, às vezes quase translúcido quando visto de perto.

O cabelo grisalho, por sua vez, costuma ser uma mistura: fios ainda pigmentados lado a lado com fios sem pigmento, além de alguns com pouca melanina, num tom intermediário. De longe, o olho combina tudo e enxerga um cinza. Conforme a proporção de fios sem melanina aumenta, o conjunto vai do grisalho ao branco.

Vale notar que esse pigmento é fabricado dentro do próprio corpo. É diferente do que acontece com os flamingos, que tiram a cor rosa da comida: no cabelo humano, a cor depende de células vivas trabalhando na raiz de cada fio.

O que acontece dentro do folículo?

Cada fio nasce num folículo, uma pequena bolsa na pele. Na base dele, os melanócitos produzem melanina e a transferem para as células que formam o fio enquanto ele cresce. Como o cabelo passa por ciclos de crescimento, queda e renascimento, esses melanócitos precisam ser renovados a cada novo ciclo.

Quem faz essa renovação são as células-tronco de melanócitos, guardadas no próprio folículo. A cada ciclo, parte delas se transforma em células produtoras de pigmento e outra parte fica de reserva. Quando a reserva acaba ou deixa de funcionar direito, o folículo continua fabricando cabelo, só que sem cor. A parte do fio que já cresceu não desbota: a cor é definida na raiz, no momento em que cada trecho se forma.

Com que idade os fios brancos costumam aparecer?

A idade varia muito de pessoa para pessoa e também entre populações. Uma revisão de estudos publicada em 2021 no Journal of Clinical and Aesthetic Dermatology resume as médias de início assim:

GrupoInício médio dos fios brancos
Pessoas brancas (caucasianas)Meados dos 30 anos
Pessoas de origem asiáticaFinal dos 30 anos
Pessoas de origem africanaMeados dos 40 anos

A mesma revisão cita a velha regra dos três 50: aos 50 anos, cerca de metade das pessoas teria metade dos cabelos brancos. É uma aproximação tradicional, não uma lei, e a origem étnica e geográfica muda bastante esse ritmo. Os fios brancos são considerados precoces quando surgem antes dos 20 anos em pessoas brancas, dos 25 em asiáticas e dos 30 em africanas.

Os genes decidem quando o cabelo vai branquear?

Em boa parte, sim. Em 2016, um estudo publicado na revista Nature Communications e liderado pela University College London, de Londres, analisou o DNA de mais de 6 mil voluntários do Brasil, da Colômbia, do Chile, do México e do Peru. Pela primeira vez, um gene foi associado ao grisalho: o IRF4, que já era conhecido por participar da produção e do armazenamento de melanina.

Os autores ressaltaram que o IRF4 não age sozinho. Ele é uma peça entre outros fatores, alguns ainda não identificados, o que ajuda a explicar por que irmãos podem ganhar fios brancos em idades diferentes.

O estresse deixa o cabelo branco?

Essa é a parte mais famosa e a mais mal contada. Em 2020, pesquisadores de Harvard liderados por Ya-Chieh Hsu publicaram na revista Nature um estudo com camundongos. Sob estresse, os nervos do sistema simpático, ligado à reação de luta ou fuga, liberaram noradrenalina junto aos folículos. As células-tronco de melanócitos se transformaram todas de uma vez em células de pigmento, e o estoque se esgotou em poucos dias. O dano foi permanente.

É o mesmo sistema nervoso que, num susto ou no frio, faz os pelos se arrepiarem. Mas o que vale para camundongos não vale automaticamente para pessoas.

Em 2021, uma equipe da Universidade Columbia, liderada por Martin Picard, publicou na revista eLife uma análise de fios de 14 voluntários, fatiados para reconstruir a história de cada um, e comparou os resultados com diários de estresse. Houve associação entre fases estressantes e trechos brancos. E alguns fios voltaram a ganhar cor quando a pressão diminuiu, como os de um participante durante as férias.

O estudo é pequeno e mostra associação, não causa. Os próprios autores acreditam que o estresse só empurra para o branco fios que já estavam perto de um limiar, algo mais comum na meia-idade, e não esperam que uma vida mais calma escureça o cabelo de quem está grisalho há anos.

Por enquanto, não existe um jeito comprovado de evitar ou reverter os fios brancos. Cada um deles registra o momento em que um folículo parou de repor pigmento, numa história escrita principalmente pelos genes e pela idade e, talvez, com uma pequena contribuição das fases difíceis da vida.

Fontes

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