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Corpo humano

Arrepios: por que a pele se arrepia no frio, no susto e com uma boa música

Pequenos músculos presos a cada pelo se contraem e levantam a pele. É uma herança de quando nossos ancestrais tinham pelagem, e o mesmo reflexo aparece em emoções fortes, como ao ouvir uma música marcante.

Redação Curious Mundi · 3 de novembro de 2026

Ilustração de um braço com pelos em pé, uma lupa mostrando um pelo erguido na pele, vento frio e notas musicais.

Um vento gelado, um barulho estranho no escuro ou o refrão certo de uma música: situações muito diferentes podem deixar a pele arrepiada. Os pelos ficam em pé e surgem pequenas saliências, como se a pele tivesse virado a de uma galinha depenada. Por trás disso há um reflexo antigo, que hoje serve pouco para nós, mas que continua ligado às nossas emoções.

Um músculo minúsculo em cada pelo

Cada folículo piloso tem preso a si um músculo microscópico chamado músculo eretor do pelo. Ele é controlado pelo sistema nervoso simpático, a parte do sistema nervoso autônomo que prepara o corpo para situações de alerta. Quando os nervos liberam noradrenalina, o músculo se contrai, puxa o pelo para cima e eleva a pele ao redor. O resultado é o arrepio, que os médicos chamam de piloereção.

Uma herança dos tempos de pelagem

Em mamíferos com pelagem densa, eriçar os pelos tem duas utilidades claras. No frio, os pelos levantados prendem uma camada de ar que funciona como isolante térmico. Diante de uma ameaça, o animal parece maior, como o cão que eriça o pelo do dorso ou o chimpanzé que faz o mesmo em situações de medo ou agressividade. Como os humanos têm pouco pelo no corpo, o reflexo quase não nos protege, e por isso é considerado vestigial, um resquício evolutivo.

Isso não quer dizer que a estrutura seja inútil. Em 2020, a equipe da pesquisadora Ya-Chieh Hsu, da Universidade Harvard, mostrou na revista Cell, em estudos com camundongos, que o músculo eretor e os nervos simpáticos formam um ambiente que regula as células-tronco do folículo e influencia o crescimento dos pelos. A ideia de que o frio estimularia, por essa via, uma pelagem mais espessa ainda é uma hipótese, e os resultados foram obtidos em animais, não em pessoas.

Frio, susto e emoção

Como o sistema simpático entra em ação em vários tipos de alerta, o arrepio aparece em situações bem diferentes entre si:

  • Frio: a resposta mais básica, ligada à conservação de calor.
  • Medo ou susto: o mesmo sistema que acelera o coração eriça os pelos.
  • Emoções intensas: uma cena de filme, um discurso, uma lembrança ou uma conquista importante.
  • Música: um tipo de arrepio tão estudado que ganhou nome próprio, frisson.

O frisson: arrepios com música

Muita gente sente um formigamento que sobe pela nuca e pelas costas, muitas vezes acompanhado de pele arrepiada, em certos trechos de uma música. Em 2001, Anne Blood e Robert Zatorre, da Universidade McGill, no Canadá, usaram tomografia por emissão de pósitrons para observar o cérebro de voluntários ouvindo músicas escolhidas por eles próprios. À medida que os arrepios ficavam mais intensos, mudava a atividade em regiões ligadas à recompensa e à emoção, como o estriado ventral, a amígdala e o córtex orbitofrontal.

Em 2011, Valorie Salimpoor e colegas, também da McGill, mostraram na revista Nature Neuroscience que esses momentos liberam dopamina, a mesma substância associada a outras recompensas. Curiosamente, uma região chamada núcleo caudado era mais ativa na antecipação do trecho marcante, enquanto o núcleo accumbens respondia no auge da emoção. Ou seja, a expectativa também faz parte do prazer.

Por que nem todo mundo sente

As estimativas de quantas pessoas sentem frisson variam bastante entre os estudos, de cerca de 55% a 86%. Pesquisas associaram o fenômeno ao traço de personalidade chamado abertura à experiência. Um estudo de Matthew Sachs e colegas, publicado em 2016 com apenas 20 participantes, encontrou em quem sente arrepios com música mais conexões de substância branca entre regiões auditivas e áreas ligadas à emoção, como a ínsula. Como a amostra é pequena, o resultado é uma pista, não uma conclusão.

Em resumo, o arrepio é um reflexo herdado de ancestrais peludos: um músculo minúsculo levanta cada pelo quando o sistema nervoso entra em alerta. Para nós, ele serve pouco contra o frio, mas virou um sinal visível de emoção. Já os calafrios acompanhados de febre ou mal-estar são outra história e merecem avaliação de um profissional de saúde.

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