Por que sentimos cócegas, mas não conseguimos fazer cócegas em nós mesmos
As cócegas dependem da surpresa. Quando somos nós que mexemos a mão, o cérebro prevê o toque e abafa a sensação, e experimentos com robôs mostraram como esse mecanismo funciona.

Tente fazer cócegas na sola do próprio pé e quase nada acontece. Basta outra pessoa repetir o mesmo movimento para você se contorcer de rir. A diferença não está na pele, que é a mesma, mas no cérebro: ele sabe o que a sua mão vai fazer e se prepara para isso. Entender esse truque ajuda a explicar não só as cócegas, mas também como separamos o que fazemos do que acontece conosco.
Existem dois tipos de cócegas
Em 1897, os psicólogos americanos G. Stanley Hall e Arthur Allin propuseram dividir as cócegas em duas categorias, com nomes de origem grega que são usados até hoje. Elas parecem a mesma coisa, mas provocam reações bem diferentes.
- Knismesis: o toque leve, como uma pena ou um inseto andando na pele. Provoca coceira ou arrepio, raramente riso, e conseguimos produzi-la em nós mesmos. Muitos animais reagem a esse tipo de estímulo.
- Gargalesis: a pressão mais firme e repetida em regiões sensíveis, como costelas, axilas e sola dos pés. É a que faz rir e, em geral, não funciona quando tentamos fazer em nós mesmos. Foi descrita em humanos e outros primatas.
O cérebro prevê o próprio toque
Sempre que o cérebro manda um comando de movimento, ele gera também uma previsão das sensações que esse movimento vai causar. Os neurocientistas chamam isso de modelo interno, ou modelo preditivo. Quando a sensação real bate com a prevista, ela é atenuada; quando não bate, ganha destaque. Faz sentido: assim o cérebro não perde tempo com o que ele mesmo provocou e fica atento ao que vem de fora.
Em 1998, a neurocientista Sarah-Jayne Blakemore e os colegas Daniel Wolpert e Chris Frith, do University College London, publicaram na revista Nature Neuroscience um estudo com ressonância magnética funcional. O córtex somatossensorial, que processa o tato, e o córtex cingulado anterior, ligado ao aspecto agradável da sensação, ficavam menos ativos quando o toque era feito pela própria pessoa. O cerebelo, região que monitora os movimentos, aparecia como peça-chave: ele ajudaria a prever a sensação e a cancelar a resposta das outras áreas.
O experimento do robô
Em 1999, no Journal of Cognitive Neuroscience, o mesmo grupo usou um braço robótico para testar a ideia. Os voluntários moviam uma alavanca com a mão esquerda, e o robô transmitia o movimento a um estímulo macio que tocava a palma da mão direita. Quando o toque acompanhava o movimento exatamente, a sensação era fraca. Mas, quando os pesquisadores introduziam um atraso de 100 ou 200 milissegundos, ou desviavam a direção do toque em 30, 60 ou 90 graus, os participantes passavam a achar o estímulo cada vez mais cócegas. Quanto maior a diferença entre o previsto e o real, mais intensa a sensação.
Outro estudo de 1999, de Christine Harris e Nicholas Christenfeld, da Universidade da Califórnia em San Diego, mostrou que não é preciso outra pessoa. Trinta e cinco voluntários receberam cócegas do pesquisador e de uma suposta máquina automática e reagiram de forma muito parecida nos dois casos. O que importa é o toque ser imprevisível ou estar fora do nosso controle.
Quando a previsão falha
Um estudo de 2000, publicado na revista Psychological Medicine, comparou pessoas com e sem certos sintomas psiquiátricos. Pacientes que tinham alucinações auditivas ou a sensação de que seus atos eram controlados por outros não percebiam o toque feito por eles mesmos como mais fraco do que o toque externo. Voluntários sem esses sintomas, incluindo outros pacientes psiquiátricos, mostravam a diferença normal. Para os autores, isso sugere uma falha no automonitoramento: o cérebro teria dificuldade em reconhecer o que ele próprio produz.
Para que servem as cócegas?
Aqui entramos no terreno das hipóteses. Para a knismesis, uma explicação comum é a defesa: o toque leve chama a atenção para insetos e parasitas na pele. Para a gargalesis, muitos pesquisadores apostam em uma função social, ligada à brincadeira e aos laços entre pais e filhos. Ratos ajudam a sustentar essa ideia. Desde os trabalhos de Jaak Panksepp, sabe-se que eles emitem chamados ultrassônicos quando recebem cócegas de humanos. Em 2016, Shimpei Ishiyama e Michael Brecht, da Universidade Humboldt de Berlim, mostraram na revista Science que neurônios do córtex somatossensorial desses animais reagem às cócegas e à brincadeira, e que ratos ansiosos ficam menos sensíveis a elas.
Em resumo, as cócegas dependem de surpresa. O cerebelo e outras áreas preveem o toque que nós mesmos causamos e reduzem a sensação, por isso a autocócega quase não funciona. Esse sistema de previsão é o mesmo que nos permite distinguir nossas ações das ações dos outros. E vale lembrar que nem todo mundo gosta de cócegas: se alguém pede para parar, é hora de parar.


