Por que tantos preços terminam em 99? O efeito do dígito da esquerda
Preços terminados em 99 exploram o peso que damos ao primeiro dígito. Veja o que estudos sobre o efeito do dígito da esquerda mostram, quando ele funciona e por que a origem do costume segue incerta.

Tantos preços terminam em 99 porque lemos números da esquerda para a direita e damos peso exagerado ao primeiro dígito: R$ 4,99 parece mais perto de 4 do que de 5. Estudos de marketing confirmam esse "efeito do dígito da esquerda", mas mostram que ele só aparece em certas condições. Já a origem do costume continua incerta.
O truque é tão comum que quase não se nota. Mesmo assim, por trás de uma diferença de um centavo existe uma pilha de pesquisas, alguns números surpreendentes e uma história de origem que ninguém conseguiu comprovar.
Quão comuns são os preços terminados em 9?
Muito. Um estudo dos economistas Avichai Snir, da Netanya Academic College, e Daniel Levy, da Universidade Bar-Ilan, analisou cerca de 98,9 milhões de preços semanais de 93 lojas da rede de supermercados americana Dominick's, entre 1989 e 1997. O 9 era o último dígito em 63,9% dos preços. O segundo colocado, o 5, aparecia em 11,4%, e o 0, em apenas 4,7%.
- O 9 foi o final mais frequente em 28 das 29 categorias de produtos; a exceção foi a dos cigarros.
- Em algumas categorias passava de 90%, como cerveja (95,7%) e xampu (91,5%).
- A participação dos preços terminados em 9 subiu de 51,9% em 1989 para 73,0% em 1997.
Os autores lembram que dezenas de estudos encontram fatias de 60% a 95% de preços terminados em 9 no varejo. Se os finais fossem aleatórios, cada dígito ficaria com cerca de 10%. No Brasil, a mesma lógica aparece em etiquetas como R$ 9,99 ou R$ 19,90.
O que é o efeito do dígito da esquerda?
A explicação mais estudada vem da psicologia do consumo. Em 2005, Manoj Thomas e Vicki Morwitz, da Universidade de Nova York, publicaram no Journal of Consumer Research cinco experimentos sobre o tema. A conclusão foi que um preço terminado em 9 pode parecer menor que o preço um centavo acima, mas não sempre.
- O efeito só aparece quando o dígito mais à esquerda muda, como de 3,00 para 2,99.
- Ele fica mais forte quando o preço está perto de um valor de comparação, como o de um produto concorrente.
- O fenômeno não se limita a etiquetas: também aparece na comparação de outros números de vários dígitos.
A ideia é que o cérebro começa a avaliar o número antes de terminar de lê-lo, e o primeiro dígito acaba ancorando a impressão. O professor de marketing Lee Hibbett, ouvido pela revista Live Science, acrescenta outro fator: em compras pequenas, as pessoas tentam gastar pouco esforço e muitas vezes nem olham os centavos.
Isso funciona nas vendas de verdade?
Em pelo menos alguns casos, sim. Eric Anderson, da Kellogg School of Management, e Duncan Simester, do MIT, fizeram três experimentos de campo variando os finais de preço, publicados em 2003 na revista Quantitative Marketing and Economics. Em todos, terminar o preço em 9 aumentou a procura. O efeito foi maior em produtos novos, que os clientes conheciam menos, e menor quando o item já vinha marcado como promoção.
O exemplo mais citado veio de um catálogo de roupas femininas. Segundo a Live Science, quando o preço de um vestido subiu de US$ 34 para US$ 39, a procura cresceu cerca de um terço; levá-lo a US$ 44 não fez diferença. Ou seja, o 9 parece funcionar também como sinal de "preço de oferta", algo que os consumidores aprenderam a associar a pechinchas.
Um preço terminado em 9 é sempre mais barato?
Não necessariamente. No mesmo estudo com os dados da Dominick's, Snir e Levy compararam preços terminados em 9 com preços terminados em 0 e concluíram que, na especificação principal, os terminados em 9 eram em média mais altos em 21 das 29 categorias. A exceção importante foram as promoções: entre os preços de liquidação, os terminados em 9 costumavam ser mais baixos, o que pode reforçar a fama de barato.
Esse tipo de atalho mental aparece em outras contas do dia a dia. A mesma dificuldade de enxergar o tamanho real dos números ajuda a explicar por que tanta gente subestima como funcionam os juros compostos.
De onde veio o costume dos preços quebrados?
Ninguém sabe ao certo. Segundo a Live Science, historiadores não conseguem apontar quem começou a prática, que existe há pelo menos um século. A pesquisa acadêmica sobre preços "quebrados" também é antiga: a lista de referências de Snir e Levy inclui um artigo de 1932 intitulado "Do Odd Prices Earn Money?" ("Preços quebrados dão dinheiro?").
A hipótese mais repetida diz que os comerciantes adotaram preços como 0,99 para obrigar o caixa a abrir a gaveta e dar troco, registrando a venda e dificultando que o funcionário embolsasse o dinheiro. A história é plausível, mas não há documentação que a comprove. E ela não explica por que os finais em 9 continuam fortes em lojas virtuais, onde não existe gaveta nem troco. Quem se interessa pelos símbolos das etiquetas pode conhecer também a origem do cifrão.
Seja qual for a origem, o costume sobreviveu porque nunca precisou ser racional para funcionar. Um centavo a menos quase nunca muda o orçamento de ninguém, mas pode mudar o primeiro número que os olhos encontram, e é com esse número que muita compra começa.
Fontes
- IDEAS/RePEc: Penny Wise and Pound Foolish: The Left-Digit Effect in Price Cognition
- Kellogg School of Management: Effects of $9 Price Endings on Retail Sales: Evidence from Field Experiments
- Bar-Ilan University: If You Think 9-Ending Prices Are Low, Think Again
- Live Science: Why Do Most Prices End in .99?


