Por que as tartarugas vivem tanto (e por que algumas quase não envelhecem)
Em muitas espécies de tartaruga, o risco de morrer quase não aumenta com a idade. Estudos de 2022 apontam o casco e o ritmo de vida lento, mas há exceções.

As tartarugas vivem tanto porque muitas espécies envelhecem de forma extremamente lenta: depois de adultas, o risco de morrer quase não aumenta com a idade. Dois estudos publicados na revista Science em 2022 ligam isso ao casco, que protege contra predadores, e a um ritmo de vida lento. Mas nem toda tartaruga é longeva, e nenhuma é imortal.
O que significa dizer que uma tartaruga quase não envelhece?
Para os biólogos, envelhecer não é só somar aniversários. É o aumento do risco de morrer e a perda de funções do corpo com o passar dos anos. Nos seres humanos, esse risco sobe muito: para mulheres nos Estados Unidos, a chance anual de morrer é de cerca de 1 em 2.500 aos 10 anos e de 1 em 24 aos 80.
Fala-se em envelhecimento desprezível quando essa curva fica praticamente plana. A bióloga Beth Reinke, da Universidade Northeastern Illinois, resumiu assim: nesses animais, a probabilidade de morrer não muda com a idade depois que eles passam da fase reprodutiva. Se o risco é de 1% ao ano aos 10 anos, continua sendo de 1% aos 100.
O que os estudos de 2022 descobriram?
Em junho de 2022, a Science publicou dois trabalhos complementares. Um, liderado pela Universidade Estadual da Pensilvânia e pela Northeastern Illinois, reuniu 114 cientistas e dados de populações selvagens. O outro, da Universidade do Sul da Dinamarca, olhou para tartarugas, cágados e jabutis em zoológicos e aquários.
| Estudo | O que analisou | Principal resultado |
|---|---|---|
| Reinke e colegas (Penn State e Northeastern Illinois) | 107 populações selvagens de 77 espécies de répteis e anfíbios | Pouco ou nenhum sinal de envelhecimento em várias espécies de tartaruga |
| Da Silva e colegas (Universidade do Sul da Dinamarca) | 52 espécies de quelônios em zoológicos e aquários | Envelhecimento muito lento em cerca de 75% delas; cerca de 80% envelhecem mais devagar que os humanos |
O estudo com animais selvagens também mostrou uma variedade enorme entre os animais de sangue frio: a longevidade contada a partir da primeira reprodução foi de 1 a 137 anos, uma diversidade maior do que a observada em aves e mamíferos.
Qual é o papel do casco e do metabolismo?
Uma ideia popular diz que animais de sangue frio vivem mais porque têm metabolismo lento. O estudo com populações selvagens testou essa hipótese e, de modo geral, não a confirmou: as taxas de envelhecimento de répteis e anfíbios ficam tanto acima quanto abaixo das de mamíferos e aves de tamanho parecido. A relação com o metabolismo só apareceu nas tartarugas, o que sugere que elas são um caso à parte.
A explicação com mais apoio foi outra: características de proteção, como a carapaça dura da maioria das tartarugas, contribuem para envelhecer mais devagar. A ideia por trás disso é que, quando um animal adulto raramente morre devorado ou ferido, compensa investir na manutenção do corpo, porque ele tem chance real de viver e se reproduzir por muitos anos. Defesas do corpo moldam a vida de muitos bichos, como as listras das zebras, que parecem afastar moscas.
Quais tartarugas vivem mais tempo?
O exemplo mais famoso é Jonathan, uma tartaruga-gigante-das-seicheles que vive nos jardins da residência do governador de Santa Helena, ilha britânica no Atlântico Sul. Ele chegou à ilha em 1882 já adulto, com pelo menos 50 anos, e por isso estima-se que tenha nascido por volta de 1832. O Guinness o reconhece como o animal terrestre vivo mais velho e o quelônio mais velho já registrado. Em 2026, teria cerca de 194 anos, numa estimativa considerada conservadora.
No estudo dinamarquês, a tartaruga-gigante-de-aldabra apareceu com taxa de envelhecimento igual a zero, e uma espécie asiática, a tartaruga-negra-dos-pântanos (Siebenrockiella crassicollis), chegou a ter taxa negativa: na população estudada, o risco de morrer diminuiu com a idade.
Toda tartaruga vive muito?
Não. Se cerca de 80% das espécies analisadas em cativeiro envelhecem mais devagar que nós, as outras 20% envelhecem no mesmo ritmo ou mais depressa. A tartaruga-egípcia (Testudo kleinmanni), por exemplo, tem uma taxa de envelhecimento positiva, como a dos humanos.
Envelhecer devagar também não é o mesmo que ser imortal. Os pesquisadores dinamarqueses lembram que todas acabam morrendo de causas inevitáveis, como doenças. Eles observaram ainda que algumas espécies retardaram o envelhecimento quando passaram a viver em condições melhores do que as da natureza, sinal de que o ambiente também pesa.
Para nós, que percebemos o tempo passar no cabelo que fica branco e em tantos outros sinais, as tartarugas mostram que envelhecer não segue uma regra única no mundo vivo. Algumas espécies, protegidas por uma armadura e sem pressa nenhuma, parecem ter negociado com o tempo condições bem melhores que as nossas.
Fontes
- Penn State University: Secrets of reptile and amphibian aging revealed
- Universidade do Sul da Dinamarca (EurekAlert!): Humans can't, but turtles can: Reduce weakening and deterioration with age
- AAAS (EurekAlert!): Diverse aging rates in ectothermic tetrapods
- Guinness World Records: Jonathan the tortoise is NOT dead


