Por que as zebras têm listras? O que a ciência já sabe
Cientistas discutem a função das listras das zebras há mais de 150 anos. Hoje, a explicação com mais apoio experimental é a proteção contra moscas que picam, mas camuflagem, temperatura e reconhecimento ainda aparecem no debate.

Poucos animais são tão fáceis de reconhecer quanto uma zebra. O curioso é que, apesar de tão visível, o padrão preto e branco ainda não tem uma explicação definitiva. Pesquisadores estudam a questão há mais de 150 anos, e várias hipóteses já foram propostas. Nos últimos anos, porém, uma delas passou a reunir bem mais evidências do que as outras.
Uma pergunta antiga, várias respostas possíveis
As ideias se dividem em quatro grandes grupos: proteção contra insetos, defesa contra predadores, controle da temperatura e comunicação entre as próprias zebras. Elas não são necessariamente excludentes, e é possível que as listras cumpram mais de uma função. A tabela resume o estado atual de cada hipótese.
| Hipótese | O que dizem os estudos |
|---|---|
| Moscas que picam | A mais apoiada: há correlação geográfica e experimentos de campo favoráveis |
| Camuflagem contra predadores | Pouco apoio: leões e hienas mal distinguem as listras a distância |
| Controle da temperatura | Em debate: há correlação com o calor, mas um experimento não achou resfriamento |
| Reconhecimento social | Pouca evidência direta até agora |
Moscas: a hipótese mais apoiada hoje
Em 2014, uma equipe liderada pelo biólogo Tim Caro, da Universidade da Califórnia em Davis, publicou na Nature Communications uma análise que comparou a distribuição de sete espécies de equídeos, entre zebras, cavalos e asnos, e suas subespécies, com a intensidade das listras em cada região. Os pesquisadores testaram cinco explicações e só uma se encaixou bem: as listras eram mais marcadas onde havia mais incômodo por moscas que picam, como as mutucas. Eles também lembraram que o pelo da zebra é mais curto que as peças bucais dessas moscas, o que a tornaria um alvo fácil.
Em 2019, pesquisadores das universidades de Bristol e da Califórnia em Davis filmaram mutucas em volta de zebras e cavalos em uma propriedade no Reino Unido. As moscas circulavam os dois animais com a mesma frequência, mas não desaceleravam ao se aproximar das zebras e, por isso, pousavam muito menos nelas. Cavalos vestidos com capas listradas também receberam menos pousos do que os que usavam capas de uma cor só. No mesmo ano, um estudo japonês com seis vacas pintadas com listras pretas e brancas registrou quase metade das picadas de mutuca em relação aos animais sem pintura.
O mecanismo exato ainda não está claro. Uma possibilidade é que as listras confundam a visão de baixa resolução das moscas na hora do pouso. Mesmo assim, entre as hipóteses, esta é a que reúne hoje o maior conjunto de dados a favor.
Camuflagem e predadores
Uma ideia antiga é que as listras ajudariam a esconder a zebra ou a confundir leões durante um ataque. Um estudo de 2016, publicado na PLOS ONE, calculou a distância a partir da qual leões e hienas conseguem distinguir as listras. O resultado: cerca de 50 metros durante o dia, 30 metros no crepúsculo e apenas 9 metros em noites sem lua. Quando o predador está perto o bastante para ver as listras, provavelmente já ouviu ou farejou a presa. Os autores concluíram que os dados não apoiam a função de camuflagem.
Temperatura: uma pista ainda discutida
Outra hipótese diz que as faixas pretas e brancas, por absorverem calor de forma diferente, ajudariam a resfriar o corpo. Em 2015, um estudo com 16 populações de zebras-das-planícies, publicado na Royal Society Open Science, encontrou listras mais marcadas em lugares mais quentes, e a temperatura foi o fator mais associado ao padrão. Já um experimento húngaro e sueco de 2018 cobriu barris de água com peles de várias cores e os deixou ao sol: o barril listrado não ficou mais fresco do que um cinza. A questão segue aberta, até porque regiões quentes também tendem a ter mais moscas.
Reconhecimento entre zebras
O desenho das listras costuma ser descrito como único em cada indivíduo, e por isso já se sugeriu que ele ajudaria as zebras a se reconhecerem ou a manter o grupo unido. Até agora, porém, não há evidência forte de que essa seja a função principal. O estudo de 2016 sobre a visão dos predadores, por exemplo, também não encontrou sinais de que as listras sirvam para reconhecimento a distância.
Em resumo: não existe consenso absoluto, mas a balança pende para as moscas. A proteção contra insetos que picam é a única hipótese que combina padrões geográficos e experimentos de campo favoráveis, enquanto camuflagem, temperatura e reconhecimento têm apoio fraco ou contraditório. Ao ler que a ciência resolveu o mistério das zebras, vale lembrar que ainda há pesquisas em andamento.


