Por que as folhas mudam de cor no outono
O verde some quando a árvore para de produzir clorofila, revelando amarelos que já estavam na folha e vermelhos fabricados na hora. O clima decide se o espetáculo será forte ou fraco, e o clima tropical explica por que ele é raro em boa parte do Brasil.

Em regiões de clima temperado, como o nordeste dos Estados Unidos, o Canadá, a Europa e o leste da Ásia, as florestas trocam o verde por amarelo, laranja, vermelho e marrom poucas semanas antes de perder as folhas. Em boa parte, essa mudança é o que sobra quando a árvore desmonta a fábrica de energia da folha para atravessar o inverno.
O verde vem da clorofila
Durante a primavera e o verão, as folhas estão cheias de clorofila, o pigmento verde que capta a luz do Sol para a fotossíntese, processo que transforma água e gás carbônico em açúcares. A clorofila se degrada com a luz e é reposta continuamente; por isso, enquanto a árvore está em plena atividade, o verde domina e esconde os outros pigmentos.
Com a chegada do outono, as noites ficam mais longas. Órgãos de florestas e extensão rural dos Estados Unidos explicam que o comprimento da noite é o principal sinal que dispara o processo, o que faz a mudança começar mais ou menos na mesma época todos os anos em um mesmo lugar. A árvore para de repor a clorofila, recupera parte dos nutrientes da folha e forma, na base do pecíolo, uma camada de células que vai separá-la do galho, chamada camada de abscisão.
Os amarelos e laranjas já estavam lá
Quando a clorofila desaparece, aparecem os carotenoides, pigmentos amarelos e laranjas que estavam na folha o tempo todo, mascarados pelo verde. Como eles já existem e não dependem de produção nova, os amarelos costumam se repetir com regularidade de um ano para o outro.
- Clorofila: verde; some no outono porque deixa de ser reposta.
- Carotenoides: amarelo e laranja; presentes o ano inteiro, ficam visíveis quando o verde vai embora.
- Antocianinas: vermelho e roxo; produzidas no outono, em parte das espécies.
- Taninos: marrom; é o que resta quando os outros pigmentos já se degradaram.
O vermelho é fabricado no outono
Os vermelhos e roxos têm outra origem. As antocianinas, em geral, não estão presentes na folha durante o verão: elas são produzidas no outono, a partir de açúcares que ficam presos na folha enquanto a camada de abscisão se forma e as vias de transporte se fecham. Nem toda árvore faz isso. Bordos, liquidâmbares e algumas espécies de carvalho estão entre as que ficam vermelhas; bétulas e álamos tendem ao amarelo.
Por que gastar energia criando um pigmento numa folha que vai cair? Ainda não há consenso. Uma das hipóteses mais estudadas é que as antocianinas funcionam como um filtro solar, protegendo a folha enquanto a árvore recupera os nutrientes dela. Outras propostas existem, e a questão segue em debate entre os cientistas.
Por que alguns anos têm cores mais vivas
Se o comprimento da noite define quando o processo começa, é o tempo que define a intensidade. Os vermelhos mais fortes aparecem depois de dias ensolarados e quentes, que produzem bastante açúcar, combinados com noites frias, mas sem geada, que mantêm esse açúcar na folha. Segundo o Arboreto Nacional dos Estados Unidos, o melhor cenário é uma estação de crescimento úmida seguida de um outono seco, ensolarado e fresco.
Algumas condições atrapalham. Uma geada forte e precoce pode matar as folhas antes que a cor se desenvolva, porque o congelamento danifica a maquinaria que produz antocianinas. Secas severas podem fazer a árvore perder as folhas mais cedo ou atrasar a mudança.
Por que isso é raro em boa parte do Brasil
A maior parte do território brasileiro fica na zona tropical. Perto do equador, a duração do dia muda pouco ao longo do ano, e em muitas regiões não há noites frias no outono. Sem esses sinais, muitas árvores nativas da Amazônia e da Mata Atlântica mantêm as folhas o ano todo. Em biomas como o Cerrado e a Caatinga, várias espécies perdem as folhas, mas o gatilho principal é a falta de água na estação seca, não o frio, e a queda costuma vir sem o espetáculo de vermelhos. Ali, as cores da estação seca ficam mais por conta de flores, como as dos ipês.
No Sul e em áreas serranas do Sudeste, o outono é mais marcado, e é ali que aparecem paisagens douradas. Boa parte delas, porém, vem de árvores trazidas do hemisfério norte, como plátanos e liquidâmbares, plantadas em ruas e parques.
Em resumo: o verde vai embora porque a árvore para de produzir clorofila, o amarelo estava escondido desde sempre e o vermelho é fabricado na hora, com a ajuda de dias de sol e noites frescas. Se quiser prever um bom outono, observe o tempo: verão com chuva suficiente e outono seco, luminoso e sem geadas costumam render as cores mais intensas.


