A dança das abelhas: como elas mostram onde está o alimento
Ao voltar para a colmeia, a abelha-melífera usa uma dança para indicar a distância e a direção de uma fonte de alimento, tomando o Sol como referência. A descoberta rendeu a Karl von Frisch o Nobel de 1973.

Uma abelha-melífera que encontra um bom canteiro de flores não guarda a descoberta para si. De volta à colmeia, no escuro e sobre a superfície vertical dos favos, ela executa uma série de movimentos que as companheiras acompanham de perto. Esses movimentos funcionam como um mapa: informam se a comida está perto ou longe e, no caso de fontes mais distantes, em que direção voar.
Karl von Frisch e o Nobel de 1973
Quem decifrou esse código foi o zoólogo austríaco Karl von Frisch, nascido em Viena em 1886 e morto em Munique em 1982. Ele observava abelhas marcadas com tinta em colmeias com paredes de vidro, o que permitia ver cada dança. A primeira versão de sua teoria, publicada em 1923, estava errada: ele acreditava que uma dança indicava néctar e a outra, pólen. A interpretação que ficou famosa, ligando as danças à distância e à direção, foi desenvolvida nos anos 1940. Em 1973, von Frisch dividiu o Nobel de Fisiologia ou Medicina com Konrad Lorenz e Nikolaas Tinbergen, por descobertas sobre a organização e o desencadeamento de padrões de comportamento individual e social.
A dança circular: tem comida aqui perto
Quando o alimento está muito próximo da colmeia, a abelha faz a chamada dança circular: corre em pequenos círculos, mudando de sentido de vez em quando. O limite exato varia conforme a fonte consultada, de cerca de 50 metros em algumas referências até perto de 100 metros em outras. Na descrição clássica, essa dança avisa apenas que há comida nas redondezas, sem indicar a direção. As recrutas então saem e procuram, guiadas também pelo cheiro das flores que ficou no corpo da dançarina.
A dança do requebrado: distância e direção
Para fontes mais distantes, entra em cena a dança do requebrado. A abelha anda em linha reta balançando o abdômen de um lado para o outro, volta em semicírculo para um lado, repete a corrida reta e volta pelo outro lado, desenhando algo parecido com um oito. A duração do trecho reto indica a distância: quanto mais longe a comida, mais longo o requebrado. Materiais de divulgação da Universidade de Sussex dão como referência aproximada 1 segundo de requebrado para cada quilômetro, mas a calibragem varia entre colônias e paisagens.
Isso acontece porque a abelha não mede a distância em metros, e sim pelo quanto a paisagem passa diante dos seus olhos durante o voo. Um experimento publicado na Nature em 2001 mostrou que abelhas que buscavam comida dentro de um túnel curto e estreito dançavam como se a fonte estivesse muito mais longe.
O Sol como bússola
A parte mais engenhosa é a direção. Dentro da colmeia escura, a abelha dança sobre o favo vertical e usa a gravidade como referência. O ângulo entre a corrida reta e a linha vertical corresponde ao ângulo entre a direção do Sol e o caminho até a comida. Como o Sol se move ao longo do dia, a mesma fonte é indicada com ângulos diferentes de manhã e à tarde. Os sons produzidos durante o requebrado ajudam as seguidoras a captar a mensagem no escuro.
| Corrida reta no favo | Onde está a comida |
|---|---|
| Para cima | Na direção do Sol |
| Para baixo | Na direção oposta ao Sol |
| 60 graus à esquerda da vertical | 60 graus à esquerda do Sol |
| 90 graus à direita da vertical | 90 graus à direita do Sol |
O que a ciência revisou desde então
As ideias de von Frisch continuam sendo a base do tema, mas alguns detalhes foram refinados. Um estudo publicado em 2008 na revista Animal Behaviour concluiu que a dança circular e a dança do requebrado não são duas danças totalmente separadas: ambas carregam alguma informação de distância e direção, e não há uma troca brusca entre elas. Os autores propõem que se trata dos extremos de um mesmo sinal ajustável. Também se sabe que a intensidade da dança reflete a qualidade da fonte e que, na reta final, as recrutas dependem bastante do cheiro para achar as flores.
Em resumo: a abelha que dança está traduzindo uma viagem em movimento. A forma da dança diz se a comida está perto, a duração do requebrado diz a que distância e o ângulo em relação à vertical diz em que direção, usando o Sol como ponto de referência. Da próxima vez que vir abelhas visitando as mesmas flores, vale lembrar que muitas delas podem ter chegado ali seguindo as instruções de uma companheira.


