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Palavras e expressões

De onde vem a palavra OK? A piada de jornal que virou a palavra mais global

OK surgiu num jornal de Boston em 1839 como abreviação de "oll korrect", erro proposital de "all correct". O linguista Allen Walker Read documentou essa origem e derrubou várias teorias mais famosas.

Redação Curious Mundi · 4 de novembro de 2026

Ilustração de dois balões de fala vazios, um branco e um amarelo, sobre uma mão com o polegar para cima em fundo lilás.

A palavra OK nasceu em Boston, nos Estados Unidos, em 23 de março de 1839. Naquele dia, o Boston Morning Post usou "o.k." como abreviação de "oll korrect", grafia propositalmente errada de "all correct", ou "tudo certo". A origem foi documentada nos anos 1960 pelo pesquisador Allen Walker Read, da Universidade Columbia.

Ou seja: a expressão que hoje se ouve em quase qualquer idioma começou como uma brincadeira entre jornalistas, num momento em que errar a ortografia de propósito era a graça da vez. O caminho entre a piada e o uso mundial passa por uma campanha presidencial e por um século de palpites sobre a origem.

Que piada era essa de "oll korrect"?

No fim dos anos 1830, jornais de Boston e de Nova York viviam uma moda curiosa. Os humoristas escreviam expressões comuns com erros deliberados e depois as reduziam às iniciais, como um código para quem estava por dentro. Segundo o dicionário Merriam-Webster, alguns exemplos da época eram:

  • "K.G.", de "know go", forma errada de "no go" ("não rola");
  • "O.W.", de "oll wright", forma errada de "all right" ("tudo bem");
  • "O.K.", de "oll korrect", forma errada de "all correct" ("tudo certo");
  • "O.K.K.B.W.P.", que um jornal de Nova York traduziu em 1839 como "one kind kiss before we part", ou "um beijo carinhoso antes de nos despedirmos".

O registro mais antigo de OK aparece num texto satírico do editor Charles Gordon Greene, do Boston Morning Post, sobre o jornal Providence Journal, da cidade vizinha de Providence. Na brincadeira, Greene sugeria que o colega deixasse tudo "o.k.", isto é, "all correct". O dicionário Merriam-Webster registra 1839 como o primeiro uso conhecido da palavra como adjetivo e advérbio.

Como o OK sobreviveu ao fim da moda?

A maioria daquelas abreviações sumiu tão rápido quanto apareceu. O OK teve sorte. Em 1840, o presidente Martin Van Buren tentava a reeleição, e seu apelido era "Old Kinderhook", por causa de Kinderhook, a cidade do estado de Nova York onde ele nasceu. As iniciais coincidiam. Seus apoiadores criaram os "OK Clubs" e usaram o lema "Vote for OK".

Van Buren perdeu a eleição, mas a palavra ganhou o país. A campanha espalhou as duas letras muito além dos leitores de jornal de Boston, e, com o tempo, OK deixou de ser piada e virou palavra de uso diário. O Merriam-Webster registra o uso como substantivo a partir de 1841 e como verbo ("dar o OK") a partir de 1882.

AnoO que aconteceu
1839O Boston Morning Post publica "o.k." como abreviação de "oll korrect"
1840Partidários de Van Buren, o "Old Kinderhook", criam os OK Clubs
1841Primeiro registro de OK como substantivo
1882Primeiro registro de OK como verbo
Anos 1960Allen Walker Read publica a pesquisa que documenta a origem

Quem descobriu essa origem?

Durante mais de um século, quase ninguém se lembrava da piada de Boston. A pista foi recuperada por Allen Walker Read, estudioso da Universidade Columbia que, segundo a revista Smithsonian, vasculhou jornais antigos nos anos 1960 até encontrar o registro de 1839 e entender a moda das abreviações. A pesquisa dele serviu de base para o livro "OK: The Improbable Story of America's Greatest Word", publicado em 2010 pelo linguista Allan Metcalf.

Read fez mais do que achar a data. Ele também mostrou, uma a uma, por que outras explicações famosas não se sustentavam. A partir dele, os grandes dicionários de inglês passaram a apresentar "oll korrect" como a origem da palavra.

E as outras teorias sobre o OK?

Foram muitas. O Merriam-Webster lembra que já se propuseram origens no latim, no grego, no escocês, no francês, no finlandês e em línguas africanas como o wolof e o mandinga. Algumas das mais conhecidas:

  • Palavra choctaw "okeh": sugerida em 1885, dizia que o presidente Andrew Jackson teria aprendido a expressão com esse povo indígena. Até o presidente Woodrow Wilson acreditava nela. Não há registro de OK com esse sentido antes de 1839.
  • "Old Kinderhook": o apelido de Van Buren ajudou a popularizar a palavra, mas só entrou em cena em 1840, um ano depois da piada de Boston.
  • Biscoitos da Guerra Civil: segundo a Smithsonian, Read desmontou a ideia de que OK viria de uma marca de biscoitos fornecida às tropas. A guerra começou mais de vinte anos depois de 1839.
  • O porto haitiano de Aux Cayes, o alemão "Oberst Kommandant" e o telegráfico "open key": aparecem em listas de curiosidades, mas nenhuma tem um documento anterior que explique o uso registrado em Boston.

O critério dos etimologistas é simples: vale a explicação que tem registro escrito no lugar e na época certos. Histórias boas de contar, sem documento, ficam no campo da lenda, como acontece com o conde inglês que teria batizado o sanduíche. Ainda há quem discorde: em 1975, Frank Greco sugeriu que OK poderia ter mais de uma origem, incluindo o escocês "och aye". A proposta não mudou o consenso.

Por que uma palavra tão pequena foi tão longe?

OK é curto, fácil de pronunciar em muitas línguas e serve para quase tudo: concordar, confirmar, avaliar algo como razoável. Em português, convive com "tá bom", "beleza" e "certo", e costuma aparecer escrito como "ok" ou "OK". Outras palavras do cotidiano também têm biografias inesperadas, como o alô com que atendemos o telefone.

No fim, a palavra que hoje confirma pagamentos, fecha conversas e aprova planos guarda a marca da sua origem: duas letras que só fazem sentido porque alguém, em 1839, resolveu escrever "correct" com K.

Fontes

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