Por que a Groenlândia parece tão grande no mapa (e qual é o tamanho real dela)
Na projeção de Mercator, a mais comum nos mapas-múndi, as áreas incham à medida que se afastam do Equador. Por isso a Groenlândia parece do tamanho da África, que na verdade é 14 vezes maior.

A Groenlândia parece enorme porque a maioria dos mapas-múndi usa a projeção de Mercator, criada em 1569 para a navegação. Para manter os ângulos corretos, ela estica as regiões perto dos polos. No mapa, a ilha fica do tamanho da África, mas o continente africano é cerca de 14 vezes maior.
O que é uma projeção, afinal?
A Terra é quase uma esfera, e não existe jeito de achatar uma esfera sem rasgar ou deformar alguma coisa. Tente abrir a casca de uma laranja sobre a mesa: ela racha ou estica. Uma projeção cartográfica é a regra matemática que decide como cada ponto do globo vai para o papel e, portanto, o que vai ser deformado.
O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) resume o dilema assim: todo mapa plano representa mal a superfície da Terra de algum modo. Cada projeção escolhe o que preservar, entre direções, distâncias, áreas e formas, e nenhuma consegue preservar tudo ao mesmo tempo.
Por que Mercator estica as regiões polares?
O cartógrafo flamengo Gerardus Mercator desenhou sua projeção pensando em navegadores. Nela, meridianos e paralelos são linhas retas que se cruzam em ângulo reto, e qualquer linha reta traçada no mapa corresponde a um rumo constante de bússola. Para um piloto do século 16, isso era ouro: bastava ligar o porto de saída ao de chegada com uma régua e seguir aquele ângulo.
O preço é alto. No globo, os meridianos se aproximam até se encontrar nos polos. No mapa de Mercator, eles ficam paralelos, então tudo o que está longe do Equador é esticado na horizontal. Para não deformar os ângulos, a projeção estica na mesma proporção na vertical. O resultado é que as formas parecem certas em pequenos trechos, mas as áreas crescem cada vez mais em direção aos polos.
- No Equador, a escala é a real: a África aparece praticamente sem inflar.
- A 60 graus de latitude, as distâncias dobram e as áreas aparecem 4 vezes maiores.
- A 70 graus, as áreas ficam mais de 8 vezes maiores.
- A 80 graus, passam de 30 vezes.
- Nos polos, o aumento seria infinito, por isso os mapas de Mercator cortam as pontas do mundo.
Esses números saem da própria geometria da projeção: o fator de aumento das áreas cresce com o inverso do quadrado do cosseno da latitude. Como a Groenlândia fica quase inteira acima do paralelo 60° N, ela é das terras mais infladas do mapa.
Qual é o tamanho real da Groenlândia comparada à África?
Num mapa de Mercator, as duas parecem disputar espaço. Num globo, a diferença salta aos olhos: segundo material educativo da National Geographic Society, a África é cerca de 14 vezes maior que a Groenlândia. A ilha continua sendo a maior do mundo, mas está muito longe do tamanho de um continente, tema que explica também por que a Austrália é continente e a Groenlândia é ilha.
A mesma distorção afeta outros lugares de alta latitude. Canadá, Rússia, Escandinávia e Alasca aparecem bem maiores do que são, enquanto países perto do Equador, como os da África central, o Brasil e a Indonésia, aparecem quase em escala. A Antártida, quando aparece, vira uma faixa branca gigantesca na base do mapa.
Se distorce tanto, por que ainda se usa Mercator?
Porque ela continua ótima para o que foi feita: direções. O USGS lembra que é o único mapa em que uma linha reta traçada em qualquer ponto mostra uma direção verdadeira. Além disso, como preserva bem os ângulos, ruas e quarteirões não ficam tortos quando se dá zoom. Por isso serviços de mapas na internet, como o Google Maps e o ArcGIS Online, usam uma variação dela, a mesma lógica que está por trás dos aplicativos que usam o GPS para traçar rotas.
O problema aparece quando a projeção é usada para mostrar o mundo inteiro numa sala de aula, como se as áreas fossem reais. Para isso existem alternativas.
Quais projeções mostram os tamanhos corretos?
As projeções de áreas iguais mantêm o tamanho relativo de todas as regiões, mas deformam formas e direções. A mais famosa é a de Gall-Peters, adotada em 2017 nas salas de aula das escolas públicas de Boston, nos Estados Unidos. Ela acerta as áreas, mas deixa continentes como a África visivelmente alongados e espremidos.
Em resposta a essa notícia, os cartógrafos Tom Patterson, Bernhard Jenny e Bojan Šavrič criaram a Equal Earth, publicada em 2018. Ela também respeita as áreas, mas tem bordas arredondadas e formas menos esticadas. Há ainda as projeções de compromisso, que não acertam nada perfeitamente, mas erram pouco em tudo, como a Robinson e a Winkel Tripel, que a National Geographic passou a usar em seus mapas-múndi de referência nos anos 1990.
Na próxima vez que um mapa-múndi aparecer numa parede, vale procurar a Groenlândia antes de qualquer outra coisa. O tamanho dela denuncia, de longe, qual projeção o cartógrafo escolheu e o que decidiu sacrificar.


