Quem inventou o sorvete? A história, separada das lendas
O sorvete não tem um inventor. Bebidas resfriadas com neve existiam desde a Antiguidade, mas o sorvete de verdade dependeu da técnica de gelo com sal, descrita na Europa no século 16. Marco Polo e Catarina de Médici entram na história como lenda.

Ninguém inventou o sorvete sozinho. Povos antigos já resfriavam bebidas e xaropes com neve, mas congelar um creme doce exigiu uma técnica: cercar o recipiente com gelo e sal. Ela foi descrita na Europa por volta de 1550, e os primeiros sorvetes europeus surgiram na Itália no século 17. Não há prova de que Marco Polo tenha participado disso.
A história do sorvete é cheia de personagens famosos que, quando se procura nos documentos, desaparecem. Por isso vale separar duas perguntas: quem gostava de coisas geladas e quem conseguiu, de fato, congelar uma mistura doce.
Os povos antigos já tomavam sorvete?
Não exatamente. Eles tomavam bebidas e doces resfriados com neve ou gelo, que é outra coisa. Segundo a National Geographic, por volta de 400 a.C., no Império Persa, era popular o sharbat, um xarope gelado com neve. A HISTORY registra que a neve era vendida nas ruas de Atenas no século 5 a.C. e que textos da dinastia Tang, na China, descrevem uma bebida doce de leite de búfala gelado.
Também se conta que o imperador romano Nero mandava buscar neve nas montanhas para gelar sucos de fruta com mel. O livro sobre tecnologia do sorvete da Universidade de Guelph, no Canadá, trata esse episódio como parte do folclore: é uma história repetida há séculos, mas difícil de confirmar.
Qual é o papel do gelo com sal?
Esse é o verdadeiro salto técnico. Neve pura resfria, mas não congela uma mistura de leite, açúcar e frutas. Quando se joga sal sobre o gelo, ele derrete e forma uma salmoura bem mais fria que o gelo comum. Um recipiente de metal mergulhado nessa salmoura e mexido sem parar faz o conteúdo congelar, com cristais pequenos e textura cremosa.
A HISTORY afirma que esse conhecimento já era familiar no mundo árabe desde o século 13. Na Europa, segundo a National Geographic, a primeira evidência é um tratado publicado em 1550 por Blas de Villafranca, médico espanhol que vivia em Roma. Em 1558, o napolitano Giambattista della Porta descreveu o método no livro Magia naturalis, usando-o para gelar vinho. As fontes não concordam sobre todas essas datas, mas todas ligam o sorvete de verdade a essa técnica.
O que é lenda na história do sorvete?
Três histórias aparecem em quase todo texto sobre o tema, e nenhuma se sustenta bem nos documentos:
- Marco Polo: diz-se que ele trouxe da China, nos anos 1290, receitas de gelados com leite. A National Geographic lembra que alguns historiadores aceitam a ideia e outros a chamam de mito; o livro de Guelph cita pesquisadores que não encontraram nenhuma evidência histórica.
- Catarina de Médici: a lenda diz que seus cozinheiros italianos levaram o sorvete para a França quando ela se casou com o futuro rei, em 1533. Não há registro que confirme.
- Carlos 1º da Inglaterra: conta-se que ele pagava ao cozinheiro para manter em segredo a receita de creme gelado. Também não há documentos sobre esse pagamento.
Lendas assim são comuns na história da comida. O mesmo acontece com o nobre inglês que teria dado nome ao lanche mais famoso do mundo, como mostra a origem do sanduíche, entre fato e lenda.
Quando o sorvete se espalhou pela Europa e pelos Estados Unidos?
Os primeiros gelados europeus feitos com essa técnica provavelmente surgiram na Itália no início do século 17. Em 1690, saiu em Nápoles um livro inteiro sobre sorbetti, e entre 1692 e 1694 Antonio Latini, mordomo do vice-rei espanhol de Nápoles, publicou receitas de gelados, incluindo um sorvete de leite com abóbora cristalizada. Na Inglaterra, o creme gelado foi servido num banquete em Windsor em 1671. Na França, o primeiro livro dedicado só a sorvetes saiu em 1768.
Nos Estados Unidos, o sorvete aparece em registros do período colonial. Em 1774, o comerciante Phillip Lenzi anunciou sorvete à venda num jornal de Nova York, e George Washington gastou cerca de 200 dólares com sorvete no verão de 1790. Até ali, porém, fazer sorvete era trabalho de horas, com um pote de metal mexido à mão dentro de um balde de gelo e sal.
| Ano | Marco |
|---|---|
| 1550 | Primeira descrição europeia da técnica de gelo com sal |
| 1671 | Creme gelado servido em banquete em Windsor |
| 1690 | Livro sobre sorbetti publicado em Nápoles |
| 1843 | Nancy Johnson patenteia a sorveteira de manivela |
| 1851 | Jacob Fussell abre a primeira fábrica de sorvete, em Baltimore |
Duas novidades do século 19 tornaram o sorvete popular. Em 1843, Nancy Johnson patenteou nos Estados Unidos uma sorveteira de manivela com pás que raspavam e misturavam a massa, cercada de gelo e sal. Segundo o Smithsonian, foi a primeira patente americana de um aparelho para sorvete. Em 1851, Jacob Fussell, um leiteiro de Baltimore, abriu a primeira fábrica de sorvete.
O que liga o sorvete a outras histórias de comida?
O sorvete divide com o chocolate, que veio do cacau das Américas, uma trajetória parecida: começou como luxo de poucos e só virou coisa de todo dia com a indústria. E, para quem toma rápido demais, ainda guarda um efeito colateral bem conhecido: a dor de cabeça do sorvete.
No fim, o crédito pelo sorvete é coletivo: persas e chineses com seus gelados, estudiosos que descreveram o gelo com sal, cozinheiros italianos, e uma inventora americana que trocou horas de braço por uma manivela.


