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Por que o dólar é a moeda mais usada do mundo? De Bretton Woods às reservas de hoje

O dólar domina por causa do tamanho da economia americana, de mercados profundos e da herança de Bretton Woods. Veja o que é moeda de reserva e os dados mais recentes do FMI.

Redação Curious Mundi · 4 de novembro de 2026

Ilustração de um globo terrestre com uma moeda dourada no centro e fileiras de moedas vindo de quatro lados em sua direção.

O dólar é a moeda mais usada do mundo porque combina uma das maiores economias, mercados financeiros grandes e líquidos e instituições em que investidores confiam. Soma-se uma herança histórica: o acordo de Bretton Woods, de 1944, pôs a moeda americana no centro do sistema monetário do pós-guerra. Hoje, ela ainda forma mais da metade das reservas internacionais.

Isso não quer dizer que o dólar seja a moeda mais "valiosa" por unidade, nem que seja a mais usada no dia a dia de cada país. A liderança está em outro lugar: nas reservas dos bancos centrais, nas operações de câmbio, nas dívidas e nos empréstimos entre países.

O que é uma moeda de reserva?

Segundo o Federal Reserve Bank de St. Louis, moeda de reserva é uma moeda amplamente aceita que governos e bancos centrais guardam como parte de suas reservas oficiais em moeda estrangeira. Esses dólares, na maior parte, não ficam em cédulas num cofre: são mantidos em ativos denominados em dólar, sobretudo títulos do Tesouro dos Estados Unidos.

Os países guardam reservas para pagar importações, honrar dívidas externas e ter fôlego em momentos de turbulência no câmbio. Para isso, precisam de uma moeda que outros aceitem sem hesitar e que possa ser trocada rapidamente por outros ativos.

Como o dólar chegou ao centro do sistema?

A virada veio no fim da Segunda Guerra Mundial. Em julho de 1944, 730 delegados de 44 nações se reuniram no hotel Mount Washington, em Bretton Woods, no estado americano de New Hampshire, para desenhar a ordem monetária do pós-guerra. Segundo o site Federal Reserve History, as regras combinadas foram estas:

  • O dólar podia ser convertido em ouro a 35 dólares a onça.
  • Os outros países mantinham suas moedas fixas, mas ajustáveis, em relação ao dólar, dentro de uma faixa de 1%.
  • Foram criados o Fundo Monetário Internacional, que passou a existir formalmente em dezembro de 1945, e o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento, hoje parte do Grupo Banco Mundial.

O sistema durou até 1971, quando o presidente Richard Nixon encerrou a conversão do dólar em ouro. O curioso é que o fim dessa âncora não tirou o dólar do centro: ele continuou dominante mesmo sem o lastro que lhe deu a posição. O símbolo que acompanha a moeda, aliás, tem uma história própria, contada em onde vem o cifrão.

Quanto o mundo usa o dólar hoje?

O Fundo Monetário Internacional (FMI) publica a cada trimestre a composição das reservas cambiais oficiais, na base conhecida como COFER. No dado mais recente disponível, divulgado em 30 de setembro de 2026 e referente ao segundo trimestre de 2026, o dólar respondia por 56,70% das reservas, ante 57,18% no trimestre anterior. Outros indicadores, reunidos pelo Federal Reserve, mostram o mesmo padrão:

IndicadorParticipação do dólarData e fonte
Reservas cambiais oficiais56,70%2º tri. de 2026, FMI
Operações de câmbiocerca de 89%abril de 2025, BIS, citado pelo Fed de St. Louis
Dívida emitida em moeda estrangeiracerca de 60%estável desde 2010, Federal Reserve
Créditos bancários internacionaiscerca de 55%dados até 2024, Federal Reserve

No câmbio, a soma das moedas dá 200%, porque cada operação envolve duas delas. Para comparar: no mesmo levantamento do FMI, o euro tinha 20,60% das reservas, o iene 4,96% e o renminbi chinês 2,11%. O Federal Reserve estima ainda que mais de 1 trilhão de dólares em cédulas, cerca de metade de todas as notas em circulação, estava nas mãos de estrangeiros no primeiro trimestre de 2025. Não por acaso, as notas de dólar estão entre as mais conferidas do planeta, e vale saber como saber se uma nota é falsa.

Por que o dólar continuou dominante depois do ouro?

As análises do Federal Reserve apontam um conjunto de fatores, e não um motivo único:

  • Tamanho da economia: os Estados Unidos responderam por cerca de 26% do PIB mundial em 2024, segundo dados do Banco Mundial citados pelo Fed de St. Louis.
  • Mercados grandes, profundos e líquidos, com muitos ativos em dólar que podem ser comprados ou vendidos rapidamente.
  • Estabilidade, abertura ao comércio e aos fluxos de capital, direitos de propriedade fortes e Estado de direito.
  • Confiança nas instituições jurídicas, políticas e financeiras, incluindo o compromisso do governo de pagar suas dívidas.

Para os Estados Unidos, essa posição tem vantagens práticas: o Fed de St. Louis observa, por exemplo, que a procura por títulos do Tesouro permite ao governo oferecer juros menores do que precisaria em outra situação.

A participação do dólar nas reservas está mudando?

Ela já foi maior. Segundo o Federal Reserve, o dólar chegou a 72% das reservas oficiais em 2001 e estava em 58% em 2024. O dado do FMI para o segundo trimestre de 2026, de 56,70%, segue abaixo desse pico, enquanto o euro aparece como segunda moeda, com cerca de um quinto do total. Variações de um trimestre para outro podem refletir mudanças de preços e de carteira, e o FMI observa que, naquele período, os movimentos de câmbio tiveram efeito limitado.

Os números mostram uma liderança que encolheu em relação ao auge e, ao mesmo tempo, continua folgada. O que vem pela frente depende de decisões de governos, bancos centrais e investidores no mundo todo, e não cabe em previsão: o retrato mais fiel é o próximo relatório trimestral do FMI.

Fontes

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