O que é a Linha Internacional de Data (e por que ela faz zigue-zague no Pacífico)
A Linha Internacional de Data marca, no meio do Pacífico, onde o calendário passa de um dia para o outro. Veja por que ela existe, por que não é reta e como Kiribati e Samoa a mudaram de lugar.

A Linha Internacional de Data é uma fronteira imaginária no meio do oceano Pacífico onde o calendário passa de um dia para o outro. Ela acompanha quase sempre o meridiano de 180°, mas desvia para não dividir países e arquipélagos. Quem a cruza rumo ao oeste avança um dia; rumo ao leste, volta um dia.
Por que é preciso uma linha para trocar o dia?
A Terra gira 360° em 24 horas, e por isso o mundo é dividido em faixas de horário de cerca de 15° cada. Viajando para o leste, o relógio é adiantado uma hora a cada faixa; para o oeste, atrasado. Ao completar a volta ao mundo, o viajante teria acumulado 24 horas de diferença, um dia inteiro, em relação a quem ficou em casa.
Em algum ponto o calendário precisa compensar isso, senão cada navio e cada ilha poderia chegar a uma data diferente para o mesmo instante. A troca foi colocada onde atrapalha menos: no meio do Pacífico, a região do globo com menos terra firme e menos gente. É a mesma lógica das faixas que explica por que alguns países têm vários horários, tema do artigo sobre o país com mais fusos horários.
Na prática, a regra é simples. Quem atravessa a linha indo para o oeste, por exemplo do Havaí para o Japão, adianta o calendário em um dia. Quem vai no sentido contrário, para o leste, atrasa o calendário e vive de novo a mesma data.
Quem decidiu onde a linha passa?
Em 1884, a Conferência Internacional do Meridiano escolheu Greenwich, na Inglaterra, como meridiano de referência, o 0°. O lado oposto do planeta, o meridiano de 180°, virou o lugar natural para a mudança de data. Mas a conferência não traçou a linha. Segundo o histórico reunido por Robert H. van Gent, da Universidade de Utrecht, o percurso exato nunca foi definido por tratado, lei ou acordo internacional.
O nome “internacional”, portanto, engana um pouco. A linha que aparece nos mapas nasceu de um costume da navegação comercial e, no século 20, os cartógrafos passaram a seguir as recomendações dos serviços hidrográficos britânico e americano. Hoje, quem empurra a linha de um lado para o outro são os próprios países, quando decidem em que data querem viver.
Por que a linha não é reta?
Porque, se seguisse o meridiano de 180° à risca, cortaria terras habitadas ao meio. Os desvios mais conhecidos são estes:
- No extremo norte, ela se curva para o leste e atravessa o estreito de Bering, para não dividir a Sibéria.
- Um pouco abaixo, desvia para o oeste e deixa as ilhas Aleutas do lado do Alasca.
- No Pacífico Sul, faz uma saliência para o leste, para que alguns grupos de ilhas tenham a mesma data da Nova Zelândia.
- Perto da linha do Equador, dá uma grande volta para leste em torno de Kiribati, desde 1995.
Por isso, nos mapas, ela parece mais um raio desenhado à mão do que uma linha feita com régua.
O que Kiribati mudou em 1995?
Kiribati é formado por três grupos de ilhas, Gilbert, Fênix e Line, espalhados dos dois lados do meridiano de 180°. A linha antiga cortava o país, e a parte oeste ficava 24 horas à frente da parte leste. Na prática, o governo e as ilhas mais distantes passavam o tempo todo em dias diferentes do calendário.
Em 1994, o governo anunciou que a linha passaria a contornar a fronteira leste do país a partir de 1º de janeiro de 1995. Nas ilhas do leste, a sexta-feira, 30 de dezembro de 1994, foi seguida pelo domingo, 1º de janeiro de 1995: o sábado, 31 de dezembro, não existiu. Desde então, a linha faz ali um degrau enorme, e as ilhas orientais de Kiribati estão entre os primeiros lugares do mundo a começar cada novo dia.
Como Samoa pulou o dia 30 de dezembro de 2011?
Samoa deu o seu próprio salto 16 anos depois. O país ficava do lado leste da linha, mas seus principais parceiros comerciais eram Austrália e Nova Zelândia. A diferença era de 23 horas para a Nova Zelândia e de 21 horas para a costa leste da Austrália, e o primeiro-ministro reclamava que, nos negócios com os dois, o país perdia dois dias úteis por semana.
O Parlamento aprovou a mudança em maio de 2011. No fim do ano, o calendário samoano saltou da quinta-feira, 29 de dezembro, direto para o sábado, 31. A sexta-feira, 30, simplesmente não aconteceu no país. Tokelau, território da Nova Zelândia na mesma região, mudou junto.
A Samoa Americana, território dos Estados Unidos no mesmo arquipélago, ficou onde estava. Resultado: ilhas vizinhas, separadas por um voo curto, vivem com 24 horas de diferença, e um viajante pode comemorar o mesmo aniversário duas vezes. Ajustes de calendário assim têm longa história, como mostra a origem do ano bissexto, mas poucos foram feitos de uma noite para a outra.
Fontes
- Encyclopaedia Britannica: International Date Line
- Universiteit Utrecht (R. H. van Gent): A History of the International Date Line - 1884 International Meridian Conference
- Universiteit Utrecht (R. H. van Gent): A History of the International Date Line - Kiribati/Samoa adjustments
- EarthSky: Samoa's calendar drops Friday, December 30, 2011


