De onde vem o ano bissexto: de Júlio César à regra dos séculos
O ano das estações dura cerca de 365,2422 dias, e o calendário precisa de um dia extra para acompanhar. Veja como o calendário juliano e a reforma gregoriana de 1582 criaram a regra atual.

A cada quatro anos, fevereiro ganha um dia 29. Quase sempre, mas não sempre: 1900 não foi bissexto, 2000 foi, e 2100 não será. Essa regra estranha é o resultado de dois mil anos de ajustes para que o calendário não se descole das estações.
Um ano que não fecha a conta
O ano que importa para as estações é o ano tropical: o tempo entre dois equinócios de março, por exemplo. Ele dura cerca de 365,2422 dias, ou aproximadamente 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos. Um calendário de 365 dias certinhos ficaria quase um quarto de dia para trás a cada ano. Segundo o Observatório Naval dos Estados Unidos, isso somaria cerca de 24 dias por século, e o início da primavera no hemisfério norte escorregaria de 20 de março para meados de abril em cem anos.
Júlio César e o ano de 445 dias
No século 1 a.C., o calendário romano estava tão bagunçado que andava cerca de três meses fora de sincronia com o Sol. Júlio César decidiu resolver o problema de uma vez. Para realinhar as datas, o ano de 46 a.C. foi esticado para 445 dias, o mais longo da história do calendário ocidental. A partir de 45 a.C. entrou em vigor o calendário juliano, com orientação do astrônomo Sosígenes de Alexandria: anos de 365 dias e um dia extra a cada quatro anos, o que dá uma média de 365,25 dias.
Daí vem a palavra bissexto. Os romanos contavam os dias de trás para a frente a partir das calendas, o primeiro dia do mês. O dia extra era inserido repetindo o sexto dia antes das calendas de março, que passava a existir duas vezes: bis sextus, o sexto duplicado. A aplicação também teve tropeços no começo: por mal-entendidos na contagem, o calendário só passou a funcionar como previsto por volta do ano 8 d.C.
O pequeno erro que virou dez dias
O ano juliano de 365,25 dias é cerca de 11 minutos e 14 segundos mais longo que o tropical. Parece pouco, mas acumula quase um dia a cada 128 anos. No século 16, o equinócio de março já caía por volta do dia 11, cerca de dez dias antes da data de referência, 21 de março. Isso preocupava a Igreja, porque a data da Páscoa é calculada a partir do equinócio.
A solução veio com a bula Inter gravissimas, assinada pelo papa Gregório 13 em 24 de fevereiro de 1582. A proposta central foi do médico e astrônomo Luigi Lilio, desenvolvida pelo matemático Cristóvão Clávio. Para corrigir o atraso, dez datas foram simplesmente puladas: em vários países católicos, quinta-feira, 4 de outubro de 1582, foi seguida por sexta-feira, 15 de outubro. A sequência dos dias da semana não foi alterada.
A regra dos séculos
- Anos divisíveis por 4 são bissextos.
- Exceção: anos divisíveis por 100 não são bissextos.
- Exceção da exceção: anos divisíveis por 400 voltam a ser bissextos.
Com essa regra, há 97 anos bissextos a cada 400 anos, e o ano médio passa a ter 365,2425 dias, muito perto dos 365,2422 do ano tropical. A diferença que sobra é de cerca de meio minuto por ano. As fontes divergem na estimativa de quando ela vai somar um dia inteiro: cerca de 3.030 anos, segundo cálculos baseados no ano tropical médio, ou cerca de 3.300 anos, segundo o Observatório Naval dos Estados Unidos. A diferença vem de definições distintas de ano.
Nem todo mundo mudou em 1582
A reforma foi papal, e países protestantes e ortodoxos demoraram a aceitá-la. Quanto mais tarde a adoção, maior o salto, porque cada ano de século não bissexto acrescentava mais um dia de diferença.
| País ou região | Ano da adoção | Datas puladas |
|---|---|---|
| Espanha, Portugal e seus impérios, Itália, Polônia | 1582 | 10 |
| França | 1582 (dezembro) | 10 |
| Estados protestantes da Alemanha | 1700 | 11 |
| Grã-Bretanha e colônias | 1752 | 11 |
| Suécia | 1753 | 11 |
| Japão | 1873 | mudou de outro calendário |
| Rússia | 1918 | 13 |
| Grécia | 1923 | 13 |
As colônias espanholas e portuguesas na América, incluindo o Brasil, seguiram a reforma das metrópoles, em alguns lugares com atraso até a notícia cruzar o oceano. Na Grã-Bretanha, 2 de setembro de 1752 foi seguido por 14 de setembro. Na Rússia, a mudança veio depois da revolução, e muitas igrejas ortodoxas ainda usam o calendário juliano para festas religiosas, o que explica o Natal ortodoxo em 7 de janeiro.
Resumindo: o ano bissexto existe porque a Terra não completa sua volta ao redor do Sol em um número inteiro de dias. César resolveu a maior parte do problema, Gregório 13 refinou a regra, e o resultado é um calendário que só vai precisar de um novo ajuste daqui a milhares de anos. Na dúvida sobre um ano, aplique as três regras acima.


