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Por que a semana tem sete dias (e por que em português eles são “feiras”)

Babilônios, tradição judaica e os sete astros visíveis a olho nu ajudaram a moldar a semana. Veja o que é fato, o que é hipótese e de onde vem o “feira” dos dias em português.

Redação Curious Mundi · 3 de novembro de 2026

Ilustração do Sol, da Lua e de cinco planetas em arco sobre um calendário de sete colunas sem números, com fases da Lua.

O dia vem da rotação da Terra, o mês tem a ver com a Lua e o ano acompanha a volta ao redor do Sol. A semana é diferente: nenhum fenômeno astronômico dura exatamente sete dias. Mesmo assim, quase o mundo inteiro organiza a vida em blocos de sete. A explicação mistura Mesopotâmia, tradição judaica, astrologia greco-romana e uma escolha da Igreja que deu ao português suas “feiras”.

Babilônia e as fases da Lua

Os registros mais antigos de um ritmo de sete dias vêm da Mesopotâmia. No calendário babilônico, os dias 7, 14, 19, 21 e 28 de cada mês tinham caráter especial, associado a restrições e descanso. Repare que, com exceção do 19, são múltiplos de sete, e que os intervalos acompanham de perto as fases da Lua: nova, quarto crescente, cheia e quarto minguante.

A ligação com a Lua é a hipótese mais citada para a escolha do número sete, mas ela tem um problema: o ciclo lunar dura cerca de 29,5 dias, e não 28. Além disso, o ritmo babilônico recomeçava a cada mês; não era ainda a semana contínua que usamos.

A tradição judaica e o sábado

Quem consolidou a semana contínua foi a tradição judaica. Na narrativa bíblica da Criação, o mundo é feito em seis dias e o sétimo é de descanso, o Shabat. Os dias eram apenas numerados, com exceção do sábado. Enciclopédias de referência registram que os judeus podem ter recebido a ideia de um ciclo de sete dias da Mesopotâmia, possivelmente durante o contato com a Babilônia, mas isso continua sendo uma hipótese. O cristianismo herdou essa semana e deu destaque ao domingo, o dia da ressurreição.

Sete astros, sete dias

A terceira peça vem da astronomia antiga. A olho nu, eram conhecidos sete astros que se movem contra o fundo das estrelas: Sol, Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. Astrólogos do mundo helenístico associaram cada dia a um deles, e os romanos adotaram essa semana planetária. Em 321, o imperador Constantino tornou oficial o descanso no dia do Sol.

A ordem dos dias tem uma explicação curiosa, registrada pelo historiador romano Cássio Dião no século 3: os astros eram ordenados do mais lento ao mais rápido (Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio, Lua) e cada um governava uma hora do dia, em rodízio. O astro da primeira hora dava nome ao dia. Seguindo a conta pelas 24 horas, o dia de Saturno é seguido pelo do Sol, depois pelo da Lua e assim por diante. O próprio Dião apresenta isso como uma tradição, e não como certeza.

AstroLatimEspanholInglêsJaponês
Soldies SolisdomingoSundaynichiyobi
Luadies LunaelunesMondaygetsuyobi
Martedies MartismartesTuesdaykayobi
Mercúriodies MercuriimiércolesWednesdaysuiyobi
Júpiterdies IovisjuevesThursdaymokuyobi
Vênusdies VenerisviernesFridaykinyobi
Saturnodies SaturnisábadoSaturdaydoyobi

No inglês, entraram deuses germânicos equivalentes: Tiw, Woden, Thor e Frigg. No japonês, adotado oficialmente em 1876, aparecem o Sol, a Lua e os elementos ligados aos planetas: fogo, água, madeira, metal e terra.

Por que em português os dias são “feiras”

O “feira” de segunda-feira não tem relação com mercado. Vem do latim feria, palavra que no latim da Igreja passou a designar os dias da semana litúrgica, contados a partir do domingo: feria secunda, feria tertia e assim por diante. No século 6, Martinho de Dume, bispo de Braga, criticou os cristãos que ainda davam aos dias nomes de deuses pagãos e defendeu a forma eclesiástica.

Ele não inventou o sistema, que já existia, mas sua pregação ajudou a fixá-lo na região onde nasceria o galego-português. Por isso o português é a principal língua românica que abandonou os nomes planetários. Sábado e domingo ficaram de fora: o primeiro vem do hebraico shabat e o segundo do latim dominicus, “do Senhor”.

O que é fato e o que é hipótese

  • Fato: os babilônios marcavam dias especiais em intervalos próximos de sete dentro de cada mês.
  • Fato: a semana contínua com um dia de descanso se firmou na tradição judaica e passou ao cristianismo.
  • Fato: os nomes planetários vêm dos sete astros visíveis a olho nu e foram difundidos pelos romanos.
  • Hipótese: o número sete foi escolhido por causa das fases da Lua.
  • Hipótese: a semana judaica foi inspirada diretamente na Babilônia.
  • Tradição antiga, sem confirmação: a ordem dos dias resulta do rodízio dos astros pelas horas.

No fim, a semana de sete dias é uma invenção humana que somou observação do céu, religião e hábito. Sobreviveu até à reforma gregoriana de 1582, que pulou dez datas sem mexer na sequência dos dias. Quem diz sexta-feira usa um vestígio do latim da Igreja; um hispanofalante, no mesmo dia, homenageia Vênus.

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