Deixar o celular carregando a noite toda estraga a bateria? O que realmente desgasta o lítio
O celular para de puxar corrente quando a bateria enche, então a noite na tomada não a sobrecarrega. O desgaste vem sobretudo de calor e de muitas horas em carga máxima, e o efeito memória não existe nas baterias de lítio.

Não do jeito que muita gente imagina. Os celulares atuais usam baterias de íons de lítio com um sistema que interrompe a carga quando a bateria enche, então ela não fica sendo sobrecarregada. O que acelera o desgaste é outra coisa: calor e muitas horas parada em carga máxima. A noite na tomada custa pouco.
O que acontece quando a bateria chega a 100%?
Quando a bateria de íons de lítio fica cheia, o carregador corta a corrente, e a tensão da bateria volta a um nível mais natural, explica o Battery University, guia técnico sobre baterias. Só quando a tensão cai até certo ponto o sistema aplica uma recarga curta para completá-la de novo.
Na prática, ao longo da noite o celular fica nesse vaivém: perde um pouquinho de carga e o carregador completa. É o que descreve o professor Christopher Lee, da Universidade Tecnológica de Nanyang (NTU), em Singapura, que considera a carga noturna em geral aceitável quando o sistema de gerenciamento da bateria funciona bem. Segundo ele, a eletricidade gasta nesse vaivém representa menos de alguns por cento da conta de luz.
Então de onde vem a fama de que estraga?
Em parte, de um fato real. Baterias de íons de lítio se desgastam com o tempo, com o calor e com os ciclos de uso, e ficar muito tempo na tensão máxima é uma das coisas que aceleram esse processo. Segundo o Battery University, permanecer cheia por longos períodos pode ser mais estressante para a célula do que fazer ciclos de carga e descarga.
A outra parte vem do chamado efeito memória, um problema associado a baterias recarregáveis mais antigas, de níquel, que pareciam perder capacidade se fossem recarregadas antes de esvaziar. Daí o velho conselho de deixar a bateria zerar antes de carregar. Nas baterias de íons de lítio isso não existe: elas não têm memória e não precisam de descargas completas periódicas. Deixar o celular chegar a zero com frequência, aliás, também não é recomendado.
Qual é o peso do calor e da carga cheia?
Uma tabela do Battery University estima quanto da capacidade uma bateria de íons de lítio ainda consegue recuperar depois de um ano guardada, conforme a temperatura e o nível de carga. São estimativas de laboratório, e cada bateria se comporta de um jeito, mas o padrão é claro:
| Temperatura | Guardada com 40% de carga | Guardada com 100% de carga |
|---|---|---|
| 0 °C | 98% | 94% |
| 25 °C | 96% | 80% |
| 40 °C | 85% | 65% |
A combinação que mais pesa é carga cheia com calor. Por isso, o lugar onde o celular carrega importa mais do que a hora. Segundo o professor da NTU, o controle térmico do aparelho costuma manter as células entre 20 °C e 40 °C, mas usar o celular intensamente enquanto ele carrega pode levar a temperatura além dessa faixa. Debaixo do travesseiro ou sob o sol, o calor também tem mais dificuldade para escapar.
Para que servem os modos de carregamento otimizado?
Muitos celulares atuais oferecem uma opção para encurtar o tempo passado em 100%. Em geral, o sistema aprende a rotina do dono, segura a carga num patamar intermediário durante boa parte da noite e só completa perto da hora em que o aparelho costuma sair da tomada. Alguns modelos também permitem limitar a carga máxima.
A lógica tem respaldo nos dados. O Battery University aponta que cargas e descargas parciais reduzem o estresse da bateria e que fazer ciclos entre 85% e 25% rende uma vida útil maior do que carregar sempre até 100%. O professor da NTU descreve a faixa entre 20% e 80% como um ponto ideal. O custo é ter menos energia disponível em cada carga, justamente a grande vantagem da bateria de lítio.
Vale a pena tirar o celular da tomada de madrugada?
Para a maioria das pessoas, não há motivo para acordar e desconectar o aparelho. Toda bateria perde um pouco de capacidade a cada ciclo, use-se o celular como for. O que dá para fazer é reduzir os fatores que aceleram esse processo:
- Carregar num lugar ventilado, longe do sol, de cobertores e de travesseiros.
- Evitar jogos e vídeos pesados durante a recarga se o aparelho esquentar.
- Ativar o carregamento otimizado, quando o aparelho tiver essa opção.
- Não deixar a bateria zerar com frequência.
- Usar cabos confiáveis: segundo a NTU, os originais trazem um chip de proteção que nem todos os paralelos têm.
Uma curiosidade: o modo avião, famoso por outro motivo (por que temos que usá-lo nos voos), pode encurtar a recarga de alguns a 10 minutos, segundo o material da NTU. E, se a bateria de repente parecer durar bem menos, antes de culpar as noites na tomada vale lembrar por que reiniciar resolve tantos problemas: às vezes o problema está no software, e não na química.


